A resistência de identidades culturais segregadas

Ao ingressarmos no curso de Arquitetura e Urbanismo nos deparamos com frases como “precisamos de mais áreas verdes”, “é necessário vitalidade urbana”, “temos que preservar o nosso patrimônio”. Alguns desses ideais entram em nossas cabeças como absolutas verdades, mas pouca vezes paramos para pesquisar sobre esses temas e criar nosso próprio acervo. Pensando nisso, trazemos algumas questões: você sabe o que é patrimônio cultural? Será que patrimônio é só casa velha?
“Podemos dizer [...] que nos encontramos diante de um bem autêntico quando há correspondência entre o objeto material e seu significado. [...] O objetivo para a preservação da memória e de suas referências culturais deve ser estabelecido a partir da função de ele se prestar ao enriquecimento do homem, muito além daquele material.” (CURY, 2000: 326)
Muitas vezes a palavra patrimônio é associada de forma materializada e limitada à espaços públicos ou edificações que compõem a história de um determinado lugar. Claro que este fato não deixa de ser verdade, porém o termo patrimônio não é definido apenas por construções ditas como históricas, mas também como possibilidades de enxergar o nosso dia a dia e, acima de tudo, reconhecer e preservar os nossos hábitos imateriais, fazendo com que a sociedade crie de tal modo uma identidade valorizada e registrada como patrimônio cultural.

A exemplo de patrimônio imaterial pode-se citar a cidade de Salvador que apresenta alguns ícones correlacionados como as baianas do acarajé, as quais representam personagens importantes da cultura brasileira transformando os espaços arquitetônicos, monumentos, ruas e praças da sua região, bem como o candomblé.


Baianas de Acarajé. Foto: Iphan/Francisco Costa Moreira
Em 1984 o primeiro terreiro de candomblé foi tombado, a Casa Branca em Salvador, Bahia. “Era a primeira vez que a tradição afro-brasileira obtinha o reconhecimento oficial do Estado Nacional” diz Gilberto Velho (2006), antigo membro do Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em seu artigo sobre patrimônio. Muitos naquela época achavam desnecessária essa ação de tombar um espaço desprovido de construção, como diz Gilberto, quando o auge era enaltecer a arquitetura luso-brasileira. Para conhecer mais sobre essa discussão, você pode ler o artigo Patrimônio, Negociação e Conflito.

Essa discussão de “tombar ou não tombar” o terreiro permanece até hoje. Muitas pessoas não se sentem conectadas a este tipo de cultura e religião.  Vemos isso quando alguns dizem não ver a necessidade em tombar tal lugar por não ser um feito arquitetônico emblemático, porém, esse tipo de patrimônio representa muito mais que algo materializado, mas sim a identidade de um povo.

Você já parou para pensar que o candomblé também faz parte da identidade cultural da cidade de Caruaru??


É isso que o professor do DeVry|UNIFAVIP, Aristoteles Veloso, junto com alguns alunos, vem fazendo na sua pesquisa de iniciação científica "Memória, Identidade e Resistência", acerca das religiões de matriz africana na cidade.

Foto: Bruna Padilha. Acervo da Pesquisa

Em entrevista para nossa equipe, Aristoteles disse que o trabalho surgiu de uma intervenção na prefeitura de Caruaru, quando ele trabalhava como assessor de projeto. Eles estavam organizando a Conferência da Mulher e foram à Recife para ver como estava estruturada a conferência de lá. Ao chegarem, uma amiga os provocou: “já que estão fazendo uma conferência para mulheres vocês têm que levar em consideração as do terreiro” e eles nem imaginaram que haviam terreiros na cidade de Caruaru-PE.


Foto: Hugo Oliveira. Acervo da Pesquisa

A desvalorização dessa cultura é tanta que a sua maior dificuldade no trabalho é, até hoje, encontrar documentos escritos, arquivos e história sobre os terreiros, “é como se não existissem”, disse. O professor fala ainda que o trabalho foca no resgate dessa história, e que estão fazendo uma pesquisa no jornal Vanguarda para verem alguns relatos e trabalhando diretamente com eles. Ele, que teve contato com essa cultura durante a faculdade, fala que a ampliação do trabalho foi feita no “boca a boca”. Primeiro havia se contabilizado 29 terreiros, depois 50 e chegou a 62 terreiros identificados com essa metodologia. Na identificação, o professor explica que nem todos eram terreiros de fato, “tem uma certa diferença, é um templo religioso, tem uma estrutura maior, tem festas regulares, ritualística própria, muito mais coletivo do que uma simples mesa de reza, então hoje lidamos com 27 enquanto terreiros.”


Foto: Hugo Oliveira. Acervo da Pesquisa


Por fazerem parte tão fortemente da cultura do nosso país, perguntamos na entrevista se essas pessoas nos terreiros têm a consciência de serem importantes como patrimônio: “Não, falando por experiência. Elas sabem que fazem parte da cultura, mas a importância desse empoderamento, não. Ainda tentam de alguma forma, mas com ações “limitadas”. Essa consciência política é apenas individualista, é tanto que quando um Pai de Santo morre, a casa acaba. Na Bahia não acontece dessa forma, os filhos continuam a casa”, disse.

Foto: Hugo Oliveira. Acervo da Pesquisa


A problemática do não reconhecimento dessas culturas vai além do aspecto histórico, mas também parte para atos de preconceito e violência. Durante a pesquisa pessoas relataram passar por xingamentos, olhares enviesados, violência física, violência patrimonial, quando usam vestimentas são chamados de “macumbeiros”, têm terreiros invadidos, pedras jogadas, chamam a polícia, entre outros constrangimentos.

Foto: Katharyne Bezerra. Acervo da Pesquisa

Esse trabalho é, sem dúvida, de grande influência tanto para essas pessoas serem reconhecidas e para que possam ser vistas como parte da sociedade e da história, como também para os estudantes de arquitetura e urbanismo terem consciência da importância da área de patrimônio cultural e como devem ser agentes modificadores diante de uma sociedade que segrega. E é por isso que o professor conta que dois pontos o motivaram para realização desse trabalho: “O primeiro é contar a história deles, uma religião tão perseguida, que faz parte da nossa cultura e merece ser contada, e o segundo é a resistência, com todo esse processo de marginalização, perseguição, violência eles ainda resistem.”.

Sugestão de Leitura:
Cidade: História e Desafio - Lúcia Lippi Oliveira, organizadora. Rio de Janeiro: Ed.Fundação GetulioVargas, 2002. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/6816/1264.pdf?sequence
 

Referências
CURY, Isabelle (org.). Cartas Patrimoniais. Rio de Janeiro: IPHAN, 2000. 2ªEd
VELHO, Gilberto. Patrimônio, negociação e conflito. 


Por Aretha Beserra; Giovanna Vieira e Valquiane Ferreira




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